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Relação entre Microbioma do Intestino Grosso e Colicas em Equinos:

  • Foto do escritor: paulobotteon
    paulobotteon
  • 6 de jan.
  • 4 min de leitura

Estudo Revela Pistas Surpreendentes no Microbioma Intestinal


Para qualquer proprietário de cavalos, a cólica é uma palavra que causa apreensão imediata. É um dos problemas de saúde mais sérios, custosos e com alta taxa de recorrência na criação de equinos. A natureza da cólica é frequentemente imprevisível; mesmo em haras onde todos os animais recebem manejo e alimentação idênticos, alguns indivíduos parecem ser consistentemente mais propensos a desenvolver o problema do que outros.

Essa variação individual tem sido um quebra-cabeça para veterinários e proprietários. Se a dieta e o manejo são os mesmos, o que explica essa diferença na suscetibilidade? E se a resposta não estiver apenas no que o cavalo come, mas sim na comunidade de microrganismos que vive em seu intestino?

Um estudo recente com cavalos de tração japoneses oferece algumas pistas surpreendentes, revelando diferenças microbianas específicas entre cavalos com histórico de cólica e aqueles sem. As descobertas sugerem que a chave para entender o risco de cólica pode estar escondida no microbioma intestinal de cada cavalo.

Saúde Intestinal é Mais do que Apenas a Dieta

A premissa do estudo foi crucial. Os pesquisadores compararam dois grupos de cavalos de tração japoneses: um com histórico de cólica e outro sem. O ponto mais importante é que todos os cavalos viviam no mesmo estábulo e consumiam exatamente a mesma dieta, com um alto nível de concentrados que compunham 65% da ração total.

A implicação dessa abordagem é profunda: as diferenças significativas encontradas em seus microbiomas intestinais não foram causadas pela dieta que estavam recebendo no momento. Isso sugere que a comunidade microbiana intestinal de um cavalo pode ser um fator de risco pré-existente para o desenvolvimento de cólica, independentemente do manejo alimentar imediato. Em outras palavras, o foco muda de apenas "o que você alimenta" para "quem está comendo o alimento" dentro do intestino.

Um Microbioma Desigual Sinaliza Perigo

Os pesquisadores analisaram um conceito chamado "uniformidade microbiana" (evenness). Em termos simples, isso mede o quão equilibrada é a distribuição dos diferentes tipos de bactérias. Imagine um intestino saudável como uma floresta tropical diversa, com muitas espécies coexistindo em equilíbrio. Um intestino com baixa uniformidade é mais como um campo dominado por algumas ervas daninhas, tornando todo o ecossistema menos estável (Figura 1).





A descoberta do estudo foi clara: os cavalos com histórico de cólica apresentaram uma uniformidade microbiana significativamente menor, medida pelo índice de uniformidade de Pielou. Um microbioma com baixo equilíbrio pode ser menos estável e menos resiliente a perturbações, tornando o intestino de um cavalo mais vulnerável a distúrbios que, em última instância, levam a um episódio de cólica.


Um Culpado Específico: o Excesso de Streptococcus

Ao analisar as populações bacterianas, uma diferença se destacou: bactérias do gênero Streptococcus foram encontradas em abundância significativamente maior no grupo de cavalos com histórico de cólica.

O Streptococcus é conhecido por ser uma bactéria amilolítica, ou seja, especializada na digestão de amido, e é um grande produtor de ácido lático. Isso se torna particularmente problemático em uma dieta rica em concentrados, como a do estudo, pois o amido abundante serve de combustível para que o Streptococcus se multiplique e produza lactato em excesso no intestino grosso.


A Prova Química: Risco Elevado de Acidez

A análise química das fezes dos cavalos confirmou a suspeita. A concentração de lactato fecal no grupo da cólica foi significativamente maior do que no grupo sem cólica. Essa é uma conexão direta: o aumento da população de Streptococcus (a "fábrica" de ácido lático) resultou em mais lactato no ambiente intestinal.

O acúmulo de ácido lático aumenta o risco de acidose no intestino grosso, uma condição que pode perturbar todo o ecossistema local. Esse ambiente ácido é hostil para muitos micróbios benéficos, o que ajuda a explicar a menor uniformidade e estabilidade microbiana observada nesses mesmos cavalos. Essa condição também pode contribuir para a dor e o acúmulo de gás associados à cólica.


Os "Mocinhos" da Digestão de Fibras Estão Ausentes

Em nítido contraste, os cavalos sem histórico de cólica foram caracterizados por uma maior abundância de vários tipos de bactérias conhecidas por sua capacidade de degradar fibras (bactérias fibrolíticas). Entre os grupos benéficos encontrados em maior número nesses cavalos estavam Rikenellaceae RC9, Kiritimatiellae e Clostridium.

A descoberta mais impactante foi o desequilíbrio na diversidade de micróbios "bons": os cavalos saudáveis apresentaram uma vantagem de 10 para 1. Enquanto o grupo sem cólica tinha dez tipos de bactérias fibrolíticas diferencialmente abundantes, o grupo com histórico de cólica tinha apenas uma. Isso sugere que uma comunidade robusta e diversificada de bactérias que digerem fibras cria um ambiente intestinal mais estável, protegendo potencialmente o cavalo contra a cólica. Os cavalos propensos à doença pareciam não ter essa força protetora.


Uma Nova Fronteira na Prevenção da Cólica?

A mensagem principal deste estudo é que a suscetibilidade de um cavalo à cólica pode estar profundamente ligada à composição pré-existente de seu microbioma intestinal. Especificamente, o equilíbrio entre bactérias produtoras de ácido, como o Streptococcus, e uma comunidade diversificada de microrganismos benéficos que digerem fibras parece ser crucial.

É importante reforçar que essas diferenças existiam mesmo quando a dieta não era um fator variável, sugerindo que o microbioma de um cavalo pode ser, por si só, um fator de risco ou de proteção. Isso nos deixa com uma questão promissora para o futuro da saúde equina: será que a análise do microbioma único de um cavalo poderá um dia se tornar uma ferramenta chave para criar estratégias personalizadas para prevenir a cólica antes mesmo que ela comece?


Fonte: Estudo original por Yano Rintaro, Moriyama Tomoe, Arai Hisao, Scheftgen Andrew J, Suen Garret, Nishida Takehiro, Handa Masaaki, Fukuma NaokiJ. Equine Sci. Vol. 36, No. 3 pp. 93–102, 2025, DOI: 10.1294/jes.36.93

 
 
 

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